Friday, May 12, 2006

Clóvis Rossi

Estou escrevendo para comentar seu editorial “Cadê os profetas?” para Folha de SP, 11 de maio.

Apesar de começar dizendo que a carta do Mahmoud Ahmedinejad é assustadora, o seu texto acabou sendo um exemplo perfeito das falácias que o presidente iraniano usa e abusa na carta.

Isso fica claro quando se analisa os exemplos usados para mostrar que a democracia “está excluindo grande e até crescente número de pessoas”. Aqui vão algumas considerações sobre seus argumentos:

- Entre 1915 e 1997, a taxa de mortalidade infantil nos EUA caiu mais de 90% (fonte)
- O maior motivo por trás do recente aumento citado não é um suposto aumento da pobreza ou diminuição da qualidade no sistema de saúde nos EUA, e sim o aumento do número de prematuros. Recém-nascidos com menos de 32 semanas contaram por 41% dessas mortes em 2002. Isso só acontece porque a tecnologia melhorou e muitos casos complicados não são abortados como antes. (fonte)
- A proporção de imigrantes nos EUA comparado com outros países desenvolvidos é muito maior. Esses grupos tem uma taxa de mortalidade infantil muito maior, o que leva a média para cima (o número entre brancos americanos é 5.65 por mil).
- Mesmo quando se analisa o estudo citado, 99% das mortes no nascimento vem de países em desenvolvimento. Você resolveu usar os EUA porque foi conveniente. Mas se o assunto é o liberalismo e democracia, seria melhor ter comparado os paises desse grupo com os outros, como o próprio Irã.

Resumindo, você usou a forma mais comum de manipulação: a seleção enganosa dos dados. Por exemplo, veja só alguns dados recentes muito mais relevantes que você resolveu ignorar:

- New Record for U.S. Life Expectancy - CDC: Babies Born in 2004 Have Life Expectancy of 77.9 Years
- 2004 U.S. death rate shows biggest decline in decades

Eu poderia listar discrepância igualmente absurdas sobre a estatística citada sobre a pobreza nos EUA. Mas o tempo é limitado.

Eu não sou jornalista. Perdi 30 minutos do meu tempo para pesquisar esses fatos. Acho irresponsável usar sua posição de formador de opinião de forma tão tendenciosa (anti-liberal, anti-americana, é difícil saber exatamente). Nesse caso em especial, suspeito que seu texto ajudou muito mais a causa do Ahmedinejad do que a da democracia e progresso.

3 comments:

Igor Taam said...

Issaí!

Anonymous said...

Ele diz umas palavrinhas da boca para fora contra o presidente do Irã e depois prova que os dois vivem no mesmo Universo Mental.

Joao Marcus said...

Eu não sou jornalista. Perdi 30 minutos do meu tempo para pesquisar esses fatos.. Essa é a diferença: jornalista no Brasil não gosta de pesquisar.