Tuesday, March 14, 2006

O futuro do capitalismo

Outro dia um dos meus economistas preferidos disse em uma entrevista que a tendência é que o tamanho dos governos pelo mundo aumente. A lógica é simples: Os enormes benefícios da globalização, juntamente com a melhora da macro economia mundial no geral (inflação sob controle e contas mais em ordem) criam menos pressão interna e externa para ajustes.

O que acontece atualmente nos EUA é um bom exemplo. O Bush continua gastando cada vez mais, e não existe expectativa de melhora em vista. Vale lembrar para o pessoal que adora números absolutos, que os EUA são ao mesmo tempo o maior pais capitalista e socialista do mundo: Em nenhum outro país a iniciativa privada produz mais, mas nenhum outro governo gasta mais que o americano. Claro que quando se olha o que realmente interessa, que é a proporção do PIB, os EUA ainda estão alguns degraus abaixo da Europa, mas mesmo assim a situação não é muito animadora. Só no periodo entre 2000 e 2005, por exemplo, o número de pessoas recebendo benefícios dos 25 maiores programas do governo americano cresceu em média 17% enquanto a população no mesmo período cresceu 5%. Esse é o maior aumento dos últimos 40 anos.

Infelizmente, isso só deve mudar quando a próxima recessão chegar.

--x--

A briga pelo capitalismo é ingrata. O único motivo pelo qual o comunismo não venceu a briga ideológica do século XX foi a total e completa inviabilidade do sistema. Se a vontade do povo fosse realmente mais forte que a lógica, estariamos todos na fila do pão e dirigindo Ladas.

A vitória do capitalismo nunca foi completa. Mesmo aqui nos EUA, supostamente o maior símbolo da prosperidade e eficiência do sistema, uma enorme parte das pessoas está sempre "em busca de alternativas" e não tem o menor problema em abusar do sistema.

Talvez o Tyler tenha razão, e tudo isso seja um reflexo dessa preferência das pessoas por estabilidade. Talvez ainda não tenhamos realmente entendido como funciona o Homo economicus, e no fim das contas esse sistema meia boca de booms and bursts seja a única solução.

--x--

Eu não sou economista, e não posso oferecer uma explicação técnica para a minha opinião. Mas mesmo assim lá vai: Eu ainda acredito que exista lugar para um sistema mais capitalista que o atual.

Acho que com o aumento da globalização, certas forças se tornaram simplesmente incontroláveis. Governos terão cada vez menos controle sobre entradas e saidas. Empresas virtuais, que podem usar com eficiência os paraisos fiscais vão se tornar cada vez mais comuns. O acesso a educação aumentará e numa economia cada vez mais baseada em serviços, fica mais fácil o "voto com os pés", isto é, as pessoas se mudaram para aonde o emprego está e cortaram o poder dos governos pela raiz.

Hey, os capitalistas também sonham.

7 comments:

Cláudio said...

Um pequeno ponto de discordância:

"Vale lembrar para o pessoal que adora números absolutos, que os EUA são ao mesmo tempo o maior pais capitalista e socialista do mundo: Em nenhum outro país a iniciativa privada produz mais, mas nenhum outro governo gasta mais que o americano."

Não é QUANTO um Estado gasta que o define como socialista mas EM QUE ele gasta. Se a maior parte desse dinheiro é gasto com segurança, isso está totalmente dentro da concepção de Estado capitalista. O que realmente aponta uma "socialização-light" (mais uma tendência de fortalecimento do welfare do que propriamente uma tendência socialista) do Estado é o aumento da concessão de benefícios sociais quando comparados com o crescimento da população.

Cláudio said...

Opinião pessoal: enquanto o capitalismo se colocar apenas como alternativa mais eficiente, ele sempre será alvo de ataques. Isso faz até sentido, pois quem garante que não exista uma alternativa mais eficiente? A supremacia do capialismo sobre o comunismo é intrinsicamente moral. Que todo mundo quer estabilidade não é novidade. Mas o que alguém está disposto a pagar para tê-la é que é a questão. O homo economicus sem uma base moral pode se tornar um ser abominável. A derrota do capitalismo virá pelos próprios capitalistas.

Paulo said...

Claudio,
Nao tenho os numeros exatos, mas lembro de ter lido que os valores gastos com programas sociais eh enorme. Inclusive o link do USA Today fala sobre isso.

Quanto a moral do capitalismo, eu compreendo seu argumento mas acho impossivel vencer o debate por ai. As pessoas sempre vao colocar essa ideia louca de igualdade acima de liberdade. Eh mais facil, eh mais bonito no papel... Acho que a unica chance do capitalismo eh o lado pratico.

[]s

Cláudio said...

Pois é. Por isso que eu acho que a tendência é a diminuição do capitalismo (não sei exatamente até que ponto). Como atualmente o único argumento do capitalismo é a eficiência, a alternativa - o socialismo - pegou para si a superioridade moral.

Cisco said...

Oh ye of little faith. Conheço membros do P-Sol que acreditam mais que tu que o capitalismo vai durar.

Ricky said...

Eu acho que a razão pela qual a idéia do socialismo continua presente, mesmo depois da falência de sua implementação prática, é a presunção de um grande número de intelectuais que acham que eles, como estudaram muito e são ungidos pelo deus da ciência, sabem como resolver todos as mazelas do mundo com suas teorias sobre o "Novo Homem", o "Novo Estado" e a "Nova Economia". Simplesmente não aceitam a idéia de deixar o maior número possivel de pessoas tentar, cada uma por si e a sua maneira, solucionar seus próprios problemas.

Os socialistas (de direita ou esquerda) são autoritários por natureza: detestam eleições, com seus resultados imprevistos. Adoram regular, adoram controlar, detestam a imprensa e amam de paixão a propaganda panfletária que reduz todos os problemas a simples slogans para a massa emburrecida. E quando fazem uma grande merda, reescrevem a história.

Giovanni Augiette said...

Sinceramente acho que o Cláudio está meio equivocado, pois o capitalismo não se sobrepôs ao socialismo apenas pela sua praticidade e eficiência, mas porque apresentava um conjunto de benefícios que dificilmente o socialismo iria alcançar. E quanto ao ônus de implantar esse sistema ao outro, com toda certeza não seria maior que o ônus que o socialismo iria provocar, uma vez que, esse sistema iria causar um desajuste completo na estrutura de incentivos tanto dos consumidores quanto e principalmente dos produtores.