Friday, June 17, 2005

Como ajudar a África?

Um novo estudo da International Policy Network sobre as consequências da ajuda internacional à África conclui que o envio de dinheiro não somente é ineficaz, mas muitas vezes altamente prejudicial aos países recipientes.

Entre 1970 e 2000, a África recebeu US$400 bilhões de ajuda. Como mostra o gráfico, existe uma correlação inversa entre ajuda e crescimento econômico:



Na verdade, essa relação não é exclusiva da África. Em menor escala, a Ásia mostra o mesmo problema:


O estudo mostra que o dinheiro vindo de doações raramente é usado em educação e saude. Apesar disso, os gastos governamentais crescem exatamente na mesma proporção em que a ajuda cresce (gráfico abaixo). Os governos se tornam mais poderosos, já que a renda é independente da taxação da população, e muitas vezes a corrupção permite que os dispositivos de controle sejam ignorados, e o 'nivel de democracia' diminui, aumentando o ciclo de pobreza. Adicione a tudo isso o fato de que a maioria desses países passaram os últimos 30 anos destruindo sua economia interna com programas socialistas, e fica fácil entender o porquê da pobreza endêmica do continente.



Existem porém algumas exceções. A Uganda, depois de décadas de desastre (GDP per capita caiu 40% entre 1971–85) resolveu abrir sua economia em 1987, e cresceu em média 6.9% ao ano durante a década de 90. Nesse caso a ajuda internacional foi um dos fatores que ajudou o país a se reerguer.



Mas sem dúvida, o caso de maior sucesso econômico na África é o da Botsuana. De país mais pobre do mundo em 1966 (ano da sua independência) a um GDP per capita de U$9.200 (O Brasil tem GDP per capita de U$8.100). Claro que Botsuana não é nenhum paraiso, mas comparativamente a melhora é indiscutível. E quando se analisa o impacto da ajuda internacional, novamente o quadro se repete:



Em resumo, o estudo conclui que o crescimento econômico não depende do nível de ajuda internacional recebida por um país, mas sim de fatores qualitativos como:
- a estrutura legal do direito à propriedade
- a capacidade do sistema judiciário em aplicar eficientemente leis universais e claras
- o tamanho do governo e sua eficácia na implementação de serviços públicos
- a abertura da economia para o comércio e investimento internacional

O estudo tambem conclui que seria mais lógico diminuir o nível de ajuda internacional, e atrelar qualquer dinheiro a reformas internas. Mesmo nesses casos, qualquer ajuda deveria ser à curto prazo. Os países ricos ajudariam muito mais se diminuíssem (eliminassem) os subsídios internos para agricultura.

19 comments:

Anonymous said...

Capitalismo = liberdade = prosperidade.

Apesar do chiado da esquerda, a verdade é inevitável.

Marcelo said...

Eu fico imaginando o que Maria "Louca" da Conceição Tavares, Gonzaga Belluzo, Luis Nassif et caterva diriam sobre esse artigo.

Qualquer semelhança com as políticas de "desenvolvimento regional" patrocinadas por essas pessoas não é mera coincidencia.

Fernando said...

O que aconteceu entre 78 e 84 na África? A correlação é inversa, mas não é direta.

Cláudio said...

Será que as curvas não representariam mais duas consequências? Por exemplo, Botswana recebeu menos ajuda porque prosperou mais. Já os paíes mais pobres, com uma crescente redução da renda, tiveram que recorrer mais à ajuda externa.

Acho que a única conclusão inquestionável seria a que "o crescimento econômico não depende do nível de ajuda internacional recebida".

Não acho que "seria mais lógico diminuir o nível de ajuda internacional", mas estou de pleno acordo com o atrelamento de "qualquer dinheiro a reformas internas".

Sou até mais radical: países como Haiti, por exemplo, jamais sairão da situação na qual se encontram se não abrirem mão, pelo menos temporariamente, de sua soberania. É isso mesmo: intervenção externa. A soberania não pode ser usada como desculpa para manter um status quo que condena milhões à miséria.

Marcelo said...

Claudio,

Por que você não acha interessante diminuir a ajuda internacional?

Paulo said...

Fernando,

Nao si o que aconteceu entre 78 e 84. Concordo que a relacao eh inversa, e o total de ajuda recebido nao eh o unico fator a ser considerado.

Como o Claudio disse, acho que a mensagem principal eh que ajuda internacional por si so nao resolve nada.

Claro que pode-se virar a mesa e dizer que o nivel de ajuda sobe e desce de acordo com os problemas do pais, e que a falta de crescimento vem mais da situacao anterior do que da propria ajuda. Uma das consequencias eh que a ajuda inflama a corrupcao, e piora a situacao, mas nao acredito que o estudo infira que a ajuda causa totalmente os problemas.

Mas se os paises ricos entendessem que ajuda por si so nao resolve, teriam que olhar por outras solucoes.

Acho que ele sugere que se diminua a quantia enviada porque alguns dos paises nao deveriam receber dinheiro algum. Um pais como Zimbabue, que expulsa fazendeiros brancos, nao deveria receber nada de ninguem.

E eu concordo sobre o Haiti. Alias, ouvi outro dia que o Brasil nao quer servir nem de policia por la, so quer "enable the dialogue". Assim fica dificil.

[]s

Claudio said...

Marcelo, o que eu queria dizer era que a redução da ajuda não acarretaria uma melhoria. Não creio haver uma relação causa-efeito.

Nem estou entrando no mérito moral da coisa de questionar se é correto tirar dinheiro do contribuinte de um país para enviar para outro. A coisa ainda piora quando o dinheiro é "emprestado" sem uma contrapartida muito bem definida e rígida. É queimar dinheiro dos outros, tarefa na qual os políticos são muito bons...

Marcelo said...

Claudio,

É verdade, não há uma relação direta de causalidade aí, até porque o impressionante seria se houvesse. A ajuda internacional é somente uma das variáveis que influenciam o crescimento do PIB. Mas de qualquer forma, é bem interessante a estatistica que demonstra que os paises que mais receberam ajuda são os que menos cresceram. Causalidade direta? Ajuda internacional efetivamente diminui o PIB? Quase certamente que não. Mas é um ótimo indicio de que essas ajudas não se prestam ao papel que deveriam prestar.

Cláudio said...

Concordo. Ajuda pura e simples é jogar dinheiro no ralo, digo, nas lojas européias onde os corruptos africanos vão gastar o dindim.

Breno B. said...

Mais: http://www.reason.com/hod/cpmt061705.shtml

Fernando said...

Paulo, pois é, eu vi essa queda brusca e me perguntei se não haveria aí toda uma série de outras causas ignoradas: conflitos, AIDS, guerra civil, etc. Como o Instituto que vc menciona é claramente à favor do mercado achei que poderia haver algum bias.

Nada de errado, até porque a questão da eficiência da ajuda é pertinente, afinal de contas, o Paquistão está aí recebendo milhões dos EUA sem mudar muita coisa em termos de corrupção e violência religiosa.

Mas alguém poderia colocar os empréstimos do FMI e o nível de crescimento econônimo de outras regiões do planeta em um gráfico e concluir coisas erradas, usando exemplo negativos de liberização, como a Argentina de Menem. []s

Paulo said...

Fernando,
O Paquistao recebe ajuda em relacao a seguranca, como a Colombia. Ai o negocio eh diferente (sem deixar de ser menos misguided)

Mas nao sei se entendi a comparacao com o FMI. Acho que os emprestimos do FMI sao altamente ineficientes. Alias, li nao sei aonde que 80% dos emprestimos do World Bank nao sao nem pagos...

[ ]s

Marcelo said...

Fernando,

Não existe liberalização com aumento do gasto publico ou aumento de divida. É a mesma coisa de chamar uma orgia de réplica da Santa Ceia.

Fernando said...

Paulo, sem dúvida, o problema com o Afeganistão e Colômbia é outro, mas o resultado não deixa de ser o mesmo. Quanto ao FMI, tb concordo com à sua ineficiência.

Valeu, Marcelo. Esse era o mesmo argumento que eu tentei fazer em relação ao paternalismo à-la-Garotinho e o sistema de saúde básico universal. Mas, orgia e Santa Ceia é ótimo. :)

[]s

Claudio said...

No dia que uma piada servir for argumento, os humoristas se tornarão os melhores debatedores.

Marcelo said...

Ok Claudio, vou tentar conter meus momentos de escrache.

Fernando said...

No dia em que os debatedores se servirem de bom humor, os argumentos se tornarão em melhores debates.

[]s

Claudio said...

Marcelo, por favor não! Piadas são sempre bem vindas. Eu particularmente adoro uma. E tenho certeza de que, se alguém te questionase pela analogia, tu explicarias tintim por tintim teu ponto de vista.

AGMENON SILVA said...

ACHO QUE O QUE O OCIDENTE FAZ PELA AFRICA É UMA VERGONHA. O QUE VCS ESTAO CHAMANDO DE AJUDA NA VERDADE ESTÁ FUNCIONANDO COMO UMA ESMOLA.AJUDAR UM PAÍS É DAR SOLUÇOES, CRIAR PROGRAMAS EFICAZES DE DESENVOLVIMENTE.DEINHEIRO? NAO SE DÁ.... ESSAS DOAÇOES SAO MAIS PARA ESCONDER TODA A EXPLORAÇAO E DESCASO DO OCIDENTE EM RELAÇAO A AFRICA.AO MENOS PODIAM PROIBIR A AÇAO DE MULTINACIONAIS QUE UTILIZAM A POPULAÇAO AFRICANA DE COBAIA EM SEUS PRODUTOS ,PRINCIPALMENTE O SETOR FARMACEUTICO, QUE VEM DISTRIBUINDO REMEDIOS SEM EFICÁCIA COMPROVADA.