Monday, June 13, 2005

Trade-offs

Até a semana passada, o Canada era o único país do mundo (Cuba e Coréia do Norte são café-com-leite) a proibir qualquer forma de seguro de saúde privado, e consequentemente obrigar seus moradores a usar o sistema público.

Mas semana passada esse experimento acabou, graças à George Zeliotis. Em 1997, ele soube que teria que esperar na fila por mais de um ano pela sua operação de quadril. Mas ao invés de fazer o que a maioria faz, i.e. pular a fronteira e usar os hospitais de Chicago ou New York, ele resolveu comprar a briga. E depois de 8 anos e duas derrotas nas cortes municipais, ele venceu.

Esse artigo me fez lembrar deste outro, aonde os sistemas de saúde dos EUA e do UK eram comparados.

O Thomas Sowell como sempre matou na mosca:
"There are no solutions to modern health care problems, only trade-offs."

30 comments:

... said...

Ah, acontece lá também??? Bom saber.

Fernando said...

Mas cuidado, Paulo. O artigo tb destaca o absurdo custo do sistema americano:

"There is something seriously out of whack about 10 therapy sessions that cost more than a month's worth of hospital bills in England."

Além de que ninguém por lá fica com um pé atrás por medo de ser processado por qualquer besteira como aqui:

There is also much less of a tendency in British medicine to make decisions on the basis of whether one will be sued for that decision. This can lead to a much healthier period of recuperation.

Sem contar que ele fala bem (!) de hospitais em Buenos Aires e Brasil. Não disse explicitamente se eram públicos mas deu a entender que sim, ou não? Sendo o Wall Street Journal, não podemos falar de bias à esquerda, certo?

Finalmente, ele meio que sorrateiramente diz que "Uninsured Americans are not left on the street to die." Por outro lado, já que eles nunca conseguirão pagar as contas, tb pode se assumir que nunca terão bom crédito. Qualquer um que more aqui nos EUA sabe como isso é prejudicial. Talvez um homeless não se importe, mas quando eu recebi uma conta exorbitante por uma visita de rotina, não achei nada engraçado.

Não me parece que o artigo seja uma acusação que derrube por terra os benefícios de um sistema de saúde público. Eu morei na Inglaterra, fui no hospital da UCL algumas vezes e fui bem tratado. O cara deu mole, devia ter ficado lá.

Abraços.

Paulo said...

Fernando

Tudo que eu queria dizer eh que o sistema totalmente publico nao funciona. Nao sou contra alternativas, e postei o segundo artigo justamente porque mostra os problemas de um e de outro.

E ainda queria ter postado uma referencia (mas nao achei online) a uma entrevista que ouvi na NPR sobre como a teoria de que grandes empresas/sindicatos seriam melhores negociadores eh um grande desastre, e que o que realmente falta no sistema americano sao planos de saude individuais.

Mas ficaria feliz se os democratas entendessem o simples ponto de que a saida nao eh a completa socializacao da saude. :-)

[ ]s

Fernando said...

Paulo, ok. Mas não seria melhor dizer que o sistema totalmente público tb tem suas mazelas, assim como o totalmente privado? Afinal de conta, funcionar funciona. Pelo menos considerando o que eu passei na Inglaterra e Itália (onde fui parar na emergência uma vez, fui examinado, fiquei 2 dias lá dentro e paguei zero liras).

Por outro lado, o sistema público nunca vai funcionar aqui. Vai contra a cultura do povo americano. O que os democratas poderiam sugerir é um plano onde os custos são menos exorbitantes e há menos abusos (e processos). Mas enquanto republicanos tratarem qualquer mudança como coisa de comunista, o pessoal vai continuar pagando pesado. A outra solução é não ficar doente.

Abraços.

Paulo said...

Fernando,

Vc pode ver a situacao por esse lado... Mas eu acho que o sistema publico nao funciona por definicao. A estrutura tem que ser muito grande, o incentivo para abusos eh muito grande, etc, etc. Eu acredito que vc teve uma experiencia boa na Europa, mas o fato eh que muitos europeus acabam vindo para os EUA em casos graves. E ai nao eh uma questao de mazela operacional, e sim um problema sistemico. Um sistema sem incentivo de lucro simplesmente mata a inovacao.

Alem de que, operacionalmente acho o desafio maior que o do sistema privado. Se num pais de 30 milhoes de pessoas como o Canada nao funciona muito bem, entao nao tem nem como tentar aqui. Seria um desastre.

Eu acredito que a saida eh uma maior liberalizacao nos seguros individuais. O que se ve atualmente eh um desiquilibrio entre muitas opcoes e nenhuma opcao. Ou vc tem um plano que te paga por tudo ou nao tem plano nenhum. Acho que a ideia de ter as corporacoes servindo como middle man foi um grande erro. Eh preciso criar novas opcoes, e acabar com esse "mundo dos pacotes". Gente que nao tem mais planos de ter filhos pagando por planos que cobrem maternidades, e moleques de 20 anos que pagam por especialistas que nunca usam.

O papel do governo na minha opiniao seria de prover um plano basico para quem REALMENTE nao pode pagar. Nada de medicare, medicaid, disabilities checks, etc. Um plano so, que cobrisse as necessidades dos que nao podem de maneira simples mas justa.

Vc lembra o plano do Kerry? Ele queria que todos tivessem a "opcao" (yeah, como se alguem nao fosse aceitar um plano de graca) a um plano tao bom quanto os senadores.

Ai eu sou totalmente contra.

[ ]s

Fernando said...

Paulo, mas isso se for um caso de tecnologia mais sofisticada. Também já vi matérias (sorry, não tenho link) sobre americanos com dinheiro que viajam ao exterior quando precisam de cirurgias importantes (mas não necessariamente sofisticadas), porque é muito mais barato ir pra outros lugares (México, por exemplo) do que tentar financiar isso por aqui. Eu mesmo só vou no dentista quando viajo pra Itália ou Brasil, pq não posso pagar consultas mais caras aqui (eu tento escovar os dentes o máximo possível o resto do tempo).

No que eu posso concordar é que o Estado e as grandes corporações são péssimos middle men. Mas quando o lucro é o objetivo final, quem se importa com os que não podem pagar? Ou se há disparidades de serviço? Ou se há abusos? Quando as companhias de seguros possuem lobbys tão poderosos quanto qualquer sindicato canadense, pq isso é melhor? Aí é que tem que ter a presença do estado para controlar. Ou seja, não para dar de graça, mas para botar na linha essa máfia dos seguros.

[]s

PS = Kerry é história, assim como o Social Security de Bush, que já anda fazendo água ao que parece...

Cláudio said...

Não pagar por uma coisa não quer dizer que ela não teve custo. Li não sei onde que um prato de comida no restaurante da Rosinha custa R$14,00 e é "vendido" por R$1,00. Mas quando a gente vive num país onde as pessoas acham que existe almoço grátis, esse tipo de coisa passa despercebida.

Paulo said...

Fernando,

Bom, ai ja estamos entrando em diferencas ideologicas. Qualquer empresa privada tem como objetivo lucro. Se vc acha que hospitais ou medicos devem ser diferente, o que vc esta propondo tem que ser estatizacao.

Acho que eh totalmente possivel vc ter um medico ou hospital que vise lucro e ao mesmo tempo preste o melhor servico possivel pelo melhor preco possivel.

O Estado deve controlar empresas de saude da mesma maneira que controla (ou pele menos devia) as outras, isto eh, evitando abusos como collusion (esqueci em portugues), enforcando contratos, checando falta de seguranca e condicoes sanitarias, etc.

Enfim, o governo precisa controlar abusos e nao querer passar o bucket para as corporations ou querer lidar diretamente com as empresas de seguro.

Isso juntamente com um plano limitado de ajuda para quem realmente precisa. O que nao eh nem de longe o que acontece atualmente nos EUA.

Alias, vc citou o Social Security que tem exatamente o mesmo problema. O Governo servindo como banco, ou melhor, como financial planner para o pais todo. O plano do Bush seria somente um band-aid. O que teria que ser feito na minha opiniao eh transformar esse esquema de piramide atual numa contribuicao bem menor, que servisse como aposentadoria para aposentados que nao conseguem se sustentar. So isso.

[ ]s

Claudio said...

Temos que lembrar que quando falamos de Estado, falamos de pessoas com interesses próprios e não de anjos imaculados. São pessoas que possuem em suas mãos o poder de impor suas vontades goela abaixo da população. Não entendo porque o Estado é colocado como contra-ponto aos malvados que só querem lucro.

Fernando said...

Cláudio, uma coisa é a pilantragem paternalista do casal Garotinho. Outra é querer dar acesso à educação, transporte e saúde (mesmo que pago) à população como um todo. Não troque as bolas.

Segundo, vc fala de pessoas com "interesses próprios e não de anjos imaculados". Vc acha que os donos de corporações são o que? Quem é mais passível de controle, alguém em quem vc pode votar numa democracia aberta ou alguém que é dono de empresa? Pq aceitar um e condenar o outro?

Paulo, o libertarianismo é bonito no papel. Mas estou convencido de que na realidade teria mais mazelas do que o sistema americano e o inglês combinados. Não consigo engolir essa idéia do "se eu não uso, não tenho pq pagar".

Um exemplo prático: minha faculdade aqui em Maryland tem um seguro de saúde picareta. Os alunos da graduação reclamaram da falta de cobertura e opções e a empresa ofereceu um acordo: cortar alguns privilégios para uma minoria e aumentar outros para a maioria.

O problema é que essa minoria são os alunos que tem filhos ou cujas esposas/maridos dependem desse plano. Ou seja, quem mais precisa vai se ferrar. A universidade aceitou o plano, porque não havia outra saída. Fantástico o humanismo dessa ideologia. Agora, vai tentar fazer com que o estado mude a tática da empresa pra vc ver como tb vão te chamar de comunista. Achar que o mercado se sensibilizará, uma vez que ele estiver agarrado ao lucro, me parece querer demais.

Abraços.

Paulo said...

Fernando,

Esse exemplo da sua faculdade mostra como essa estrategia de ter pacotes de plano de saude nao funciona. O que sua universidade deveria fazer eh dar o dinheiro diretamente para cada funcionario e cada um negociaria diretamente com as empresas de saude.

Logico que nao poderia ser somente sua universidade, e eh ai que o governo deveria interferir. As tax breaks que hoje em dia sao dadas as empresas para financiar seguro saude deveriam ser redirecionadas para individuos. Dessa maneira quem precisa de um seguro que inclua X paga por X, quem nao precisa nao paga.

Acho que o conceito de lucro eh algo a ser discutido, quem sabe num proximo post. Da mesma forma que certos conceitos como "seguranca no emprego" eh mal compreendido (ver post de hoje), a busca do lucro tambem eh. Achar que empresas podem ir atras de lucro e simplesmente ignorar funcionarios e consumidores eh uma fantasia. Eh tudo parte de um sistema codependente. O problema eh quando o governo tenta "tweak" e acaba gerando unintended consequences piores do que o problema original.

[ ]s

Cláudio said...

Fernando, estou confuso. Qual a diferença? Qualquer um pode ir no restaurante e fazer uma refeição. Aliás, você sabia que muitos universitários da UERJ e aposentados vão ao restaurante popular do Maracanã para comer? E dizem que a comida é bem razoável. Por que proporcionar atendimento médico é certo e alimentação não? Onde está a fronteira?

Quanto a pergunta:

"Quem é mais passível de controle, alguém em quem vc pode votar numa democracia aberta ou alguém que é dono de empresa?"

A realidade já a responde, não?

O César Maia tem mais poder sobre minha vida do que o Bill Gates com toda a sua fortuna.

Fernando said...

Cláudio, acho que o que responde é: você pode votar a favor ou contra César Maia, mesmo numa democracia imperfeita como a nossa. E mesmo que vc odeie tudo o que ele faz, eventualmente ele não vai mais ser prefeito. Vc acha que o Bill Gates vai algum dia deixar de ser dono da Microsoft (a não ser por velhice ou morte)? Considerando que a maioria dos computadores do mundo tem sistema Windows, quem tem mais controle sobre vc, Gates ou Cesar Maia?

Veja bem, não digo que Bill Gates seja o anti-cristo ou que a Microsoft tenha que ser estatal. O que eu digo é que se vc pegar um exemplo ruim de serviço público versus privado, tb tenho exemplos ao contrário. No Brasil existe uma corrupção e um clientelismo que permeia tanto a iniciativa privada quanto a pública. Comparar Brasil com Inglaterra ou EUA, infelizmente, é comparar laranja com maçã. []s

Paulo, mas há duas coisas contraditórias no que vc diz: o estado tem que intervir ou tem que deixar o indivíduo se virar sozinho? Quem tem mais peso na negociação: uma corporação ou um indivíduo? Como o estado interviria nesse caso sem virar estatismo?

A mais grave falha do libertarianismo é que, queiramos ou não, vivemos em sociedade. Achar que não precisamos pagar porque não temos filhos ou ainda não somos idosos é viver no "cada um por si". Se parte do meu dinheiro vai pra educação ou saúde da sociedade como um todo, eu não vejo como isso não me favorece. Excessos ou exemplos de mau controle de gastos não vão ofuscar esse fato. O que é necessário é controle, tanto de uma forma como da outra. E eu não vejo como a iniciativa privada (exclusivamente) vai oferecer isso, no tocante à saúde ou educação básica. []s

Marcelo said...

É impressionante como as pessoas confundem democracia com liberdade. Uma coisa não tem NADA a ver com a outra.

Se eu quiser, eu posso simplesmente usar linux e o Bill Gates não vai ter nenhum poder sobre a minha vida. Mas se eu não voto num Cesar Maia, tem um monte de gente que vota nele e no fim eu termino tendo que engoli-lo.

E Fernando, um dos maiores debates na Europa é que eles simplesmente não conseguem gerar empregos, fazer as economias continuarem a crescer e tem seus custos de previdência pra lá de insustentáveis. Você pode até achar bonitinho receber tratamento VIP num hospital e não ter que gastar uma Lira, mas talvez o taxpayer não ache legal ver a fatia que o governo leva da sua renda, e nem os futuros italianinhos vão gostar quando receberem as faturas dos seus avôs que gastaram mais do que devia.

Paulo said...

Fernando,

Nao sou um libertarian que prega o fim do governo. Eu acredito que o governo tem um porque de existir, e apesar de ser por definicao um antro de corrupcao, eh algo que precisamos aprender a lidar. Mas acho que o tamanho e atuacao do governo tem que ser muito, mas muito menor do que eh atualmente.

Todo esse esquema atual de seguro de saude nos EUA foi feito baseado na ideia de que empresas (e os sindicatos) teriam maior peso na negociacao dos precos dos seguros, e com isso beneficiariam os empregados. Como o governo fez isso? Deu tax breaks para as empresas quando as mesmas gastam com saude para os empregados.

Nao funcionou (entre outros motivos) porque as empresas tem que ser politicamente corretas e oferecer a mesma cobertura para todos, e porque esses enormes contratos de grupo diluem o preco de procedimentos caros entre todos os segurados.

Obviamente o incentivo de controlar gastos no sistema eh nulo. As empresas podem gastar um monte com planos de saude porque recebem o tax break. As seguradoras em troco podem incluir tudo que puderem nos planos, ja que as empresas tem que aceitar o que for ja que os contratos tem que ser validos para uma variedade enorme de pessoas.

Uma alternativa seria repassar o tax break para os individuos, o que forcaria a criacao de contratos especificos para cada situacao. As empresas de saude teriam que se adaptar fornecendo diferentes niveis de planos, o que geraria um aumento de eficiencia dos procedimentos mais comuns. O governo poderia tambem ser mais duro com as seguradoras no que diz respeito ao numero de opcoes. Da mesma forma que empresas de seguro de vida funcionam.

Sempre existira casos aonde o seguro saude eh simplesmente caro demais. E sao esses casos especificos que o governo pode ajudar com a criacao de um seguro minimo.

Tentar ajudar todos ao mesmo tempo nao funciona. Em 2001 eu perdi o emprego e minha mulher estava 9 meses gravida. Tive que pagar do meu bolso o seguro saude, e foi uma fortuna. Muita gente saudavel hoje em dia prefere nao ter plano nenhum ja que nao eh possivel ter um plano minimo. Imagine como isso acaba gerando desastres, e ai sim a sociedade sai perdendo como um todo.

Quer dizer, eu sei que o sistema atual nao funciona como deveria, mas nao acho que transferir a responsabilidade de um grupo (corporations) para outro (governo) vai solucionar o problema.

[ ]s

Fernando said...

Paulo, outro exemplo: aqui nos EUA, se vc mudar de plano, a corporação pode se recusar à dar tratamentos passados (o tal do preexisting condition). Dentro da idéia do lucro faz sentido: porque aceitar um consumidor no qual vc vai ter que gastar mais? Ou então, quem ganhar menos vai inevitavelmente receber menos dinheiro de volta e vai poder comprar menos cobertura. Dentro do problema da saúde, ambos os casos deveriam ser crime.

Se nós concordamos que o estado tem que intervir ou que tem que criar um seguro mínimo, então não é mais um sistema onde cada um (ou o mercado) faz o próprio plano. Além disso, ninguém escolhe como e quando ficar doente. Se vc tiver que dar um update numa hora urgente (como aconteceu no seu caso com sua esposa) quem garante que vc não vai ter que pagar os olhos da cara? Eu passei pela mesma situação que vc: assim que meu plano universitário praticamente deixou de cobrir dependentes, minha mulher ficou grávida. A única salvação foi que ela tinha acabado de conseguir emprego no NIH. []s

Fernando said...

Marcelo, democracia não é equivalente a liberdade, sem dúvida. Toda maioria é burra, concordo. Mas então vc está me sugerindo o que? Ditadura? "Democracia" controlada exclusivamente pelo mercado financeiro? Engolir alguém é o que acontece em qualquer atividade que envolva a raça humana, infelizmente. Ou então, se a situação estiver tão ruim assim, sempre há a alternativa de guerra civil, guerrilha armada ou outras besteiras que dão menos certo do que a democracia.

Vc pode se ver livre para escolher Linux no seu computador pessoal, mas vai fazer isso numa empresa, universidade ou no governo pra vc ver como não é tão livre assim. E não sou só eu que digo isso, o governo americano e países da Europa já processaram a Microsoft por isso.

Antes que vire saco de pancadas, que fique claro que eu não defendo o estatismo ou a posição francesa quanto à UE. Nem os desmandos do PT no Brasil. Entendo que usufruir do sistema italiano ou inglês comporta altos custos em taxas (em tempo: sou cidadão italiano e na época morava e trabalhava lá). Ironicamente, seu discurso sobre criancinhas pagando no futuro tb se aplica à muitas coisas do que o governo Bush faz. Mas se vc acha que a saúde vai se resolver com um Bill Gates da vida, isso na minha opinião seria pior do que abolir a democracia.

[]s

Paulo said...

Fernando,

Nao acho que exista situacao ideal. Por isso citei a frase do Sowell: "There are no solutions to modern health care problems, only trade-offs."

Nao acho que saude, educacao e seguranca possam ser totalmente privatizados. Seguranca alias eh a maior obrigacao do Estado, e somente situacoes muito especificas podem ser privatizadas.

Mas sobre educacao e principalmente saude, acredito que o governo deve agir como gerente e nao como produtor.

Isto eh, subsidio dali, plano minimo dali, tudo isso acho negociavel. Mas querer um sistema como o do Canada eh um absurdo. Mesmo a maioria dos paises europeus tem um approach errado na minha opiniao.

Nao existe solucao para o problema de que pessoas mais velhas e doentes vao pagar mais por seguro saude. Eh assim com qualquer seguro, quanto maior o risco, maior o premio. Tentar burlar essa regra so cria mais problemas.

Mas situacoes como a minha, ou mesmo a sua, nao deveriam ser tao dificeis como sao. E os motivos sao aqueles que eu falei antes.

E nao ache que so porque eu falei mal do Kerry que eu acho as medidas do Bush boas. A unica coisa que ele fez foi aumentar as health accounts, e dizer que o problema das litigations existe. Mas isso eh so uma parte do problema. Tinha que principalmente mudar o tax code, e isso parece que nao vao fazer.

[ ]s

Marcelo said...

Fernando,

Os EUA vão sim pagar muito caro pelo déficit corrente de hoje. Mas o problema vem de bem antes. Passa por Reagan e seu skyrocketing spending, Clinton e seus superavits fictícios, Carter e suas boas intenções, e assim vai.

Eu tenho contato com o mercado financeiro, eu vejo o que acontece, e definitivamente não dá pra existir "ditadura do mercado financeiro" se você não tem um Estado que reprime a sua população e dá permissão pra que entidades privados façam o que bem queiram. Um Estado grande e poderoso também é um Estado corrupto.

Eu só tenho a concordar com o Paulo que o coletivismo nas negociações das empresas, a onda politicamente correta que limita a cobertura X ou Y pra todos, e os contratos engessantes só tendem a complicar ainda mais a situação da saúde nos EUA, mas definitivamente não é o modelo social europeu que vai oferecer uma resposta efetiva

E Fernando, realmente não é fácil fugir da Microsoft, mas quem quer realmente, arruma uma maneira de fugir dela e não dar dinheiro a ela. Se eu fizer isso com o Cesar maia, com o PT ou com qualquer um que esteja no governo, eu vou ser preso :)

Fernando said...

Só uma pergunta: vc mexe com o mercado aonde? Porque essa do superávit fictício da era Clinton é novidade pra mim. Será que o deficit de Bush tb é fictício? Concordo que o modelo socializado europeu é imperfeito, mas se vc está me dizendo que ter mais de 40 milhões de pessoas sem cobertura nenhuma dentro de um mercado onde lobbys corporativos ditam as regras, então let's agree to disagree, porque não há mais a fazer. []s

PS = O PT está sugerindo mudar todo o sistema computacional do governo para Linux. Não entendi o lance de ir preso.

Fernando said...

Paulo, não estamos tão longe assim neste assunto então. Porém, acho que seu comentário sobre o Medicare é altamente relevante. O mercado não tem interesse em cobrir os custos elevados dos idosos, isso é fato, como vc mesmo diz. Mas tb é fato que deixar os idosos se virarem sozinhos é dar um tiro no próprio pé. Daí o Medicare ser um dos poucos subsídios do governo. Acho que pelo menos é um sinal de que, se o sistema socializado é imperfeito, então o sistema privatizado sem controle é, no mínimo, desumano.

Abraços.

PS = http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2005/06/09/AR2005060901540.html?sub=AR

Cláudio said...

Fernando, ainda aguardo a explicação da diferença entre subsidiar comida e subsidiar saúde. But take yout time...

O que Marcelo quis dizer é que se eu me recusar a pagar por um programa MS não há nada que o Bill possa fazer. Mas se eu me recusar a pagar uma taxa governamental, meu nome provavelmente será inscrito na dívida ativa.

Marcelo said...

Fernando,

O Clinton usou dinheiro de trust funds pra financiar despesas. Essa manobra nao conta no resultado operacional, mas aumenta o estoque de divida. Tanto que, a despeito do suposto superavit, a divida americana publica só fez aumentar durante aquele periodo.

Eu não concordo que lobby boys corporativos ditem as regras, mas nao se esqueça que os lobby boys corporativos em geral pagam aos homens publicos pra mudarem leis ao seu favor. Esse tipo de iniciativa privada é tão nocivo quanto uma iniciativa publica corrupta, e é por esse caminho que os EUA estão se enveredando. Se o modelo de saúde europeu não é a resposta para o problema da saúde, o americano HOJE também não é.

Fernando said...

Cláudio, a questão é simples. O que o casal Garotinho faz pode parecer uma conveniente oportunidade para criticar o estado como um todo. Mas se vc acha que corrupção e pilantragem política ocorrem só no domínio público, good luck.

Colocar um prato de comida de 14 reais por 1 é desperdício do dinheiro público (pq não tira o sem-teto da rua). Agora eu te pergunto: oferecer um médico que previna infecções infantis, problemas de gravidez e outras doenças básicas para quem não pode pagar é desperdício? Ou vc acha que esse custo não vai ser repassado à vc em termos de mortalidade infantil e perda de indivíduos produtivos? Note: não estou falando em ser "bonzinho" com pobre e vagabundo. Mesmo que alguém odeie pobre, deixá-los na sarjeta (como se faz no Brasil) é a pior solução.

Quanto às taxas, é como eu disse antes: vc vive em sociedade, queira ou não. Cabe a vc espernear contra os abusos, desperdícios e roubalheira. É fácil culpar o estado quando convem. Transferir o problema às empresas é querer acreditar em quem vc controla menos ainda. Ou vc já votou em alguma mudança do sistema Windows?

[]s

PS = Eu sugiro um referendum para ele parar de emperrar.

Fernando said...

Marcelo, concordo com sua frase (levemente modificada) "o modelo de saúde europeu HOJE não é a resposta para o problema da saúde, o americano HOJE também não é", mesmo que discordemos nas possíveis soluções.

[]s

PS = Eu não sou economista, mas achava que corte de impostos + guerras caras + gastos públicos elevados gerassem, pelo menos, mudanças consideráveis nas finanças de um país. Clinton e Bush realmente enganaram muita gente, então, se a culpa não é de ninguém. Achei que culpar administrações passadas por erros presentes fosse apenas coisas de PTs, Garotinhos e César Maias da vida.

Claudio said...

Sua argumentação possui contradições:

"Colocar um prato de comida de 14 reais por 1 é desperdício do dinheiro público (pq não tira o sem-teto da rua)."

Depois diz:

"Mesmo que alguém odeie pobre, deixá-los na sarjeta (como se faz no Brasil) é a pior solução."

Usando a premissa de que o Estado deve ser caridoso, mesmo que o prato não tire o sem-teto da rua, isso é motivo para deixá-lo morrer de fome?

Quanto ao resto do argumento, vou trocar "saúde" por "alimentação" e veja como continua sendo válido:

"Agora eu te pergunto: oferecer uma alimentação que previna as doenças oportunistas que surgem devido a desnutrição para quem não pode pagar é desperdício? Ou vc acha que esse custo não vai ser repassado à vc em termos de despesas com saúde pública e baixo rendimento escolar? Note: não estou falando em ser "bonzinho" com pobre e vagabundo."

Assim sendo, se você concorda com o Estado babá, você TEM que concordar com os programas do Governo Rosinha por questões de coerência. Não dá para concordar somente com as ações assitencialistas executadas pelos políticos que apoiamos.

Quanto aos produtos MS, nem cabe discussão: eu possuo total controle sobre o que eu considero ruim através do recurso chamado "uninstall".

Marcelo said...

Fernando,

Eu não estou jogando a culpa do problema americano nas gestões passadas e inocentando o Bush, estou apenas constatando o fato histórico que a dívida americana não começou com o Bush, e que presidentes democratas e republicanos, de Roosevelt a Reagan, de Carter a Bush, pioraram a situação. E essa constatação não muda em nada o fato de que o Bush filho piorou a situação das finanças americanas.

Fernando said...

Ok, pessoal, fiquem com a última palavra. Valeu pela discussão. []s

Claudio said...

Ué...

Claudio said...

http://www.coxandforkum.com/archives/000604.html