Saturday, January 07, 2006

Saddam e o Iraque - 1958 a 1980

Um golpe militar liderado pelo general Abdul Karim Qassim derrubou o último Rei do Iraque, Faisal II, em 1958. Faisal II era o terceiro Rei da dinastia Hashemita (a mesma do Rei Abdullah da Jordânia), instalada no poder em 1932 quando o Iraque se tornou independente da Inglaterra. A Inglaterra controlava o país desde 1920, quando a Liga das Nações resolveu criar o Iraque, anteriormente parte do Império Otomano.

Eu não pretendo falar sobre o que aconteceu antes de 1920, mas vale a pena notar que essa lenda de os problemas atuais existem porque "o Iraque foi inventado pelos britânicos" é completamente infundada. A região do Iraque já era usada como um todo pelos Otomanos desde o século 16, e os conflitos entre Sunitas, Xiitas e Curdos não foram criados por essa teórica aglomeração artificial de 1920. Lógico que no papel não existia uma unidade política, e manipulações como o acordo Sykes-Picot tiveram grande influência no Iraque atual. Mas o ponto é que as disputas internas dessa região já existiam há seculos, e foram aparecendo por diversos motivos. Para quem estiver interessado em mais detalhes desse período, esse texto é muito bom.

Voltando ao golpe de 58, Qassim governou o Iraque de Julho de 1958 à Fevereiro de 1963. Ele basicamente foi um isolacionista. Expulsou o resto das tropas britânicas do Iraque, cancelou o "Pacto de Bagdá" (pro-ocidente) e reatou as relações com a União Sovietica. Apesar das tendências comunistas, ele se desenvencilhou do Partido Comunista em 1959, expulsando os partidários de cargos de governo e do exército.

Em 1959, o partido de Saddam (então com 22 anos), Ba'ath, tentou um golpe para retirar Qassim do poder. O Ba'ath não aceitava que Qassim não aderia ao movimento Pan-árabe. O golpe falhou, Saddam foi ferido na perna e teve que se exilar na Síria. Depois mudou para outro bastião Pan-árabe, o Egito, aonde ficou até 1963.

Em 1963, o Ba'ath finalmente chegou ao poder com outro golpe. Mas brigas internas levaram ao enfraquecimento do governo, e somente 8 meses depois de chegar ao poder, foi derrubado por outro golpe militar liderado por Abdul Rahman Arif, sobrinho do Rei Faisal I. Saddam foi preso em 1964. O irmão mais novo de Abdul Rahman, Abdul Salam Arif, governou o Iraque de 1963 a 1966. Depois de sua morte, Abdul Rahman assumiu o governo de 1966 a 1968.

Em 1968 o Ba'ath chegou pela segunda vez ao poder, dessa vez liderado pelo general Ahmed Hassan al-Bakr, parente de Saddam. Depois de ter fugido da cadeia em 1967, Saddam já era um dos lideres do partido. Como recompensa pela conquista, ele foi nomeado presidente do Conselho Revolucionario e vice-presidente do país.

Vale lembrar que o nome completo do Ba'ath é Partido Árabe Socialista Ba'ath. O ocidente não ficou nada satisfeito com a subida ao poder desse pessoal, apesar de não haver nenhuma alternativa muito melhor disponível na época. Tanto que em 1972, Saddam liderou o processo de estatização das petroleiras ocidentais no Iraque, fato que contribuiu decisivamente na crise global de 1973.

O Iraque assinou um acordo com a União Soviética em 1972, e manteve uma forte aliança militar até 1978, quando a morte de comunistas iraquianos levou o pais a ficar mais próximo do Ocidente. Antes disso porém, em 1976, Saddam fez uma famosa visita à França que selou varios acordos comerciais, incluindo a transferência de tecnologia e materiais nucleares. O primeiro reator iraquiano, chamado Osiraq (informalmente chamado de "OChirac"), foi construido e equipado por franceses. Porém, o mesmo foi destruido em 1981 por Israel antes de ser totalmente finalizado. Esse morde e assopra do ocidente continuaria até o começo da guerra do Golfo, em 1991. Também em 1976, Saddam foi nomeado General do Exército e mesmo antes de ser oficialmente promovido a Presidente em 1979, já comandava de fato o Iraque.

Até 1980, graças aos petrodolares e uma relativa estabilidade social (mantida na força pelos diversos grupos da Mukhabarat), o Iraque viveu um periodo de expansão. No fim de 1979, o Iraque tinha reservas de 36 bilhões de dólares e nenhuma dívida externa.

Mas a revolução islâmica no Irã em 1979 tirou o Shah Mohammad Reza Pahlavi do poder, um 'aliado' de Saddam, e aumentou muito a pressão sobre a minoria Sunita no Iraque.

E foi ali que começou a guerra que, no fim das contas, leveria a guerra atual: A guerra Irã x Iraque.

8 comments:

Jorge Nobre said...

O Iraque também fez parte da coalizão que declarou guerra a Israel em 1948, e perdeu. Você se esqueceu de mencionar isso.

Eu acho que essa derrota não teve, na política iraquiana, as repercussões que teve na política egipcia, por exemplo. Mas fica o registro.

Paulo said...

Jorge,

Eh verdade. Eu ia so falar de 58 para frente, mas como abri a excecao logo no comeco ficou parecendo que eu estava falando de 1920 para frente.

Alem disso, fica impossivel falar tudo. A minha intencao eh so dar um overview, o que ja eh bem dificil considerando o numero de rolos que ocorreram na area.

Mas valeu pela lembranca. Um bom site sobre essa guerra de 48 (que esse pessoal anti-Israel adora esquecer) eh esse:
http://www.jewishvirtuallibrary.org/jsource/History/1948_War.html

[]s

Fernando said...

Tenho a impressão que o relato parece confirmar que qualquer um que se alie à ingleses e franceses acaba se dando mal no fim.

[]s

Paulo said...

Bom, digamos que os 2 nao fizeram escolhas muito acertadas nos ultimos anos de "imperio" (e ainda tem gente que acha que os EUA podem ser chamados de imperio)

Mas, certas coisas eram "no-win" situations. E no caso do Iraque, acredito que a culpa maior ainda esteja dentro das proprias fronteiras.

[]s

Fernando said...

Certamente. Decisões não acontecem, elas são feitas. Por outro lado, ninguém vive isolado no mundo.

[]s

smart shade of blue said...

1) se os EUA não são um império, são o quê ? Respostas para o New American Century.

2) sua tese é interessante, mas um tanto estranha. Quer dizer que a Inglaterra, que chegou lá sem ser convidada e depois teve que sair, e que no intervalo tanto se autocongratulou por estar levando a civilização àquelas remotas regiões, não tinha mesmo o menor compromisso de deixar para trás algo minimamente governável ? Não admira. Eles fizeram o mesmo na Índia, que teve que cuspir um Paquistão inteiro depois. Pelo menos o Bush disse que ia transformar o Iraque em um país apresentável aos olhos ocidentais, né ? Vamos ver o quanto dura essa disposição.

Paulo said...

Smart,
Ja respondi no seu blog, mas vale repetir: depende do que vc considera imperio. Eu considero imperio um pais que domine territorialmente o outro, controle de facto toda e qualquer operacao interna, e que consequentemente se aproprie das riquesas desse pais na forca.

Obviamente os EUA nao fazem isso, especialmente quando vc considera o mundo como vc o fez no seu site. Os EUA sao o pais mais poderoso do mundo, e isso traz a bagagem de poder influenciar o mundo. Isso eh inegavel. Assim como eh inegavel a consequente responsabilidade e atencao (varias vezes indesejadas) que vem acompanhadas.

Quanto a Inglaterra, nao disse que eles nao tinham responsabilidade nenhuma. Tinham, por varios motivos, ate mesmo para beneficio proprio. Afinal, o Imperio (aqui a palavra aplica) Britanico nao acabou a toa.

[]s

Fernando said...

Francamente, esse lance entre vocês ainda vai acabar em namoro...

[]s