Saturday, February 25, 2006

Fukuyama, Kristol e eu

O debate sobre a guerra contra o terrorismo continua.

O Fukuyama escreve que os neoconservadores fizeram bobagem, que a guerra no Iraque basicamente foi um desastre e que a única solução para o fim do terrorismo é um lighter approach dos EUA, isto é, diplomacia internacional. Ele acha que os EUA não devem se isolar (i.e., continuem mandando dinheiro) mas devem parar de usar o exército como ferramenta de mudança.

O Kristol respondeu na mesma moeda, basicamente dizendo que os EUA tem que continuar na ofensiva, e que essa visão do Fukuyama que "democracias amadurecem sozinhas" é ingênua ao extremo.

Acho que os dois lados esquecem de analisar alguns fatores. Primeiro, o Fukuyama assume que o governo dos EUA trataram o Iraque como algum tipo de experimento para um plano militar maior. Nunca se sabe exatamente o que se passa na cabeça dos governantes e, se a invasão do Iraque tivesse sido muito fácil, não duvido que o incentivo para novas invasões seria maior. Porém, no contexto da época, o objetivo das guerras do Afeganistão e Iraque era muito mais tático do que estratégico. Os dois lados dão muito mais crédito ao governo Bush do que eu dou.

Outro problema da análise do Fukuyama é que ele dá a entender que a política atual é a regra e que a alternativa proposta seria a exceção. Na verdade, desde o fim da segunda guerra mundial, os EUA adotaram essa posição que ele propõe de soft power. Com a exceção do Vietnam, todas as outras guerras de 1950 a 2002 foram defensivas (Coréia) ou muito pequenas e rápidas (conflitos na América do Sul, Filipinas, etc). E também vale lembrar que a estratégia da época não era de intencionalmente apoiar ditadores. Era justamente fazer o que o Fukuyama diz ser o caminho certo, isto é, aceitar os governos em poder e formentar a democracia quando possível.

Os resultados dessa época não foram muito bons. E a forma em que a guerra fria foi ganha não foi somente uma desculpa para o movimento agressivo atual, foi também o maior exemplo de que aquela estratégia de soft power simplesmente não estava chegando à lugar nenhum.

Se o governo Bush é ingênuo como Fukuyama quer mostrar (toda vez que alguém cita um "plano secreto" para justificar uma teoria eu fico desconfiado) eu não sei. Mas inferir que o resultado atual mostra que a única solução é a volta ao passado me parece absurdo.

Já o Kristol não oferece muito, a não ser o velho discurso "stay the course". Até o Fukuyama concorda que atualmente não há muito o que se fazer, e daí já tiramos de lado todo esse bando de gente (esquerda desde sempre e extrema direita nos últimos meses) que querem simplesmente abandonar o Iraque como se fosse um experimento de ciências que deu errado.

Abandonar o Iraque seria um desastre por vários motivos. Porém, o maior deles é ignorado pelo Fukuyama, provavelmente porque vai contra uma das premissas que justificaria a volta à o velho lighter approach: A idéia de que os EUA são odiados por serem duros demais.

Na verdade, os EUA e o Ocidente no geral, são vistos como poderes fracos e corruptos pelos radicais islâmicos. Não se esqueçam que antes das 2 guerras, a possibilidade dos EUA perderem militarmente era considerada amplamente possível. Toda a idéia por trás de um império islâmico é baseada no conceito de que o Ocidente é um monstro barrigudo, que só não é derrotado porque os povos islâmicos não se unem.

Agora, se o Kristol acha que o Iraque pode ser considerado um modelo de como essa guerra contra o terrorismo tem que ser lutada, aí nós discordamos. Não acho que seja possível definir um "modelo" para esse conflito. Acho que diante das circunstâncias, o governo Bush agiu corretamente em 2002. Mas será que se o Irã continuar com seus planos nucleares a resposta Americana deveria ser a mesma?

Acho que não. Ironicamente, esse é um dos argumentos preferidos da esquerda: "Se atacaram o Iraque, então porque não atacam todos os ditadores?"

A resposta é óbvia, mas de alguma forma o argumento é considerado sério. Uma lógica maluca anode a força tem que ser a regra ou a exceção. O uso da força tem que ser uma alternativa. Não pode ser a última alternativa, como quer a esquerda (por vários motivos), e nem a primeira alternativa como querer alguns da extrema direita.

O último ponto que acho importante nessa discusão toda é o papel da democracia. Um dos argumentos do Fukuyama é que a democracia "promove o radicalismo".

Acho essa uma falácia tão absurda quanto a de que a democracia por si só promove o fim do radicalismo. A democracia somente expõe a situação, algo positivo na minha opinião.

O maior problema do radicalismo islâmico é justamente o seu aspecto informal. O nazismo pode ter sido terrível, mas foi derrotado de forma indiscutível. Enquanto o radicalismo islâmico se esconder por trás de "governos moderados" ele nunca será derrotado.

A subida ao poder desses radicais pode acabar em somente dois caminhos: Um deles é a decisão voluntária de se moderar, o que pode levar no curto prazo outros grupos radicais ao poder (caso da Palestina), mas que em algum ponto significaria a moderação da população no geral. O outro é a oficialização do radicalismo, que levaria ao caminho de sempre: punições da ONU, embargo e guerra.

Na minha opinião, essas duas opções são melhores do que a continuação do terrorismo atual.

13 comments:

Jorge Nobre said...

Você se esqueceu do risco de governos ditadoriais radicais ou "moderados" conseguirem as tais "WMDs" (que podem nunca ter existido no caso do Iraque, mas o risco, esse sim, existia). Com regimes democráticos esse risco existe (o caso de Israel é um) mas é bem menor. Esse é um argumento em favor de se procurar impor a democracia no Oriente Médio.

Pessoalmente, eu acho que a melhor alternativa seria um ditador ocidentalizante, como Ataturk. O problema aí é que o risco de trocar gato por lebre é grande, também. Saddam parecia ser isso, afinal de contas...

A verdade é que todas as alternativas são ruins.

smart shade of blue said...

Paulo,

Não vou ter tempo nem disposição de comentar tudo o que você disse aqui. Afinal, hoje é terça de cinzas.

Só vou citar um ponto inicial, até porque acho que ele sozinho já implode a maior parte de sua argumentação: sua escolha de palavras ao comentar sobre o que Fukuyama "assume" dá a entender que essa é uma mera interpretação dele. Por favor, dê-se então ao trabalho de ir ler os textos dos neocons que cercaram o pentágono.

Eu vou ser legal e te dar um trecho de um relatório e um endereço eletrônico só pra te ajudar a começar a trabalhar:

"CONSTABULARY DUTIES. Third, the Pentagon must retain forces to preserve the
current peace in ways that fall short of conduction major theater campaigns. A decade’s
experience and the policies of two administrations have shown that such forces must be
expanded to meet the needs of the new, long-term NATO mission in the Balkans, the
continuing no-fly-zone and other missions in Southwest Asia, and other presence missions in
vital regions of East Asia. These duties are today’s most frequent missions, requiring forces
configured for combat but capable of long-term, independent constabulary operations."

http://www.newamericancentury.org/RebuildingAmericasDefenses.pdf

Repare, por favor, que o texto está no site do Projeto para o Novo Século Americano, um nome por tudo sugestivo. Repare também que o texto data do ano 2000, antes mesmo do 11 de setembro.

Bom carnaval !

Paulo said...

Smart,
Ja tinha lido esses textos do New Century, ate porque o Fukuyama fala sobre isso.

Como eu disse, se o governo estava viajando nessas ideias ou nao eu nao sei. Simplesmente inferir que porque pessoas que pensavam assim "cercavam o governo" o governo agia nessa logica eh simplesmente um palpite. Eh como dizer que tudo que o Lula fez segue a doutrina comunista porque o Aldo Rebelo esta la. No fim das contas, vc sofre do mesmo problema do OdeC (e eu vejo porque seu interesse tao grande nele): Vc ve coisas demais.

E mais alem, como eu tambem ja tinha dito, nao acho que existia somente uma ideia por tras da invasao do Iraque. O que importa eh como a situacao se desenrolou e como atua atualmente o governo.

E eh com isso que eu me preocupo.

[]

Raimundo Arão said...

HAHAHA Paulo, melhor do que o texto, está o seu último comentário. Agora que você falou, eu me pergunto como é eu nunca havia percebido isso antes: a fixação pelo OdeC, a bola de cristal smartiana, os assuntos, e até o modo como joga para a platéia.

É Smart, você é mais parecido (de um modo bizarro) com o Olavo do que você pensa.

HAHAHA Essa foi boa

smart shade of blue said...

Aráo,

HAHAAH ! Você é uma bola, sério. Mas pense mais profundamente. Olavo de Carvalho é mais aparentado à Al Qaeda do que a mim. Ambos odeiam o secularismo. É o seu caso ?

Paulo,

Julgue pela fé ou pelas obras, o resultado é o mesmo, não ? Claro, há algumas alternativas ao pensamento neocon que podem colaborar numa explicação. O petróleo. A palavra de Deus nos ouvidos de Bush. Talvez a pura falta do que fazer, ora.

Mas...eu vou ser um pouco mais prático, e responder a isto lá no SSoB, com mais espaço, ok ?

Paulo said...

Smart,
E eu ja respondi por la.
[]s

fjg said...
This comment has been removed by a blog administrator.
Leila said...

Paulo, e o que você achou desse vídeo mostrando que o presidente Bush, Chertoff e Michael Brown já sabiam que o Katrina poderia estourar os diques? Agora você continua acreditando que ninguém podia prever a magnitude do desastre?

http://news.yahoo.com/s/ap/katrina_video;_ylt=AgfBLy0H7SwQhqHywmAXGrys0NUE;_ylu=X3oDMTA2Z2szazkxBHNlYwN0bQ--

Paulo said...

Leila,
Acho que todos sabiam qual era a capacidade dos diques. Todos sabiam que um furacao maior que 3 poderia acontecer.

Mas dizer que so porque aconteceu eh culpa do presidente? Vc sabe como eh que os diques estao sendo reconstruidos? Da mesma forma que eram anteriormente!

O problema dessa situacao eh outro... Quem sabe escrevo sobre isso.

[]s

Leila said...

Paulo, o presidente afirmou, com todas as letras, que "ninguém esperava o rompimento dos levees", uma frase que foi repetida exaustivamente e sem muito questionamento por toda a mainstream media (muito menos pela Fox). E o vídeo agora prova justamente o contrário, que ele foi avisado sobre isso antes mesmo do furacão bater em New Orleans. Ele mentiu descaradamente em rede nacional.

Enfim, eu só toquei nesse assunto aqui por lembrar que você, durante o Katrina, fez uma série de posts tentando livrar a cara do governo federal no episódio. Mas a verdade é que o governo foi lento no socorro, lento para demonstrar sensibilidade e luto com a situação, e não se preparou previamente para esse tipo de emergência (mesmo num país onde furacões e tornados acontecem todos os anos, e a ameaça de um ataque terrorista grave é constante), nem mesmo se preocupando em colocar uma pessoa qualificada na direção da FEMA (Michael Brown era um mero cabo eleitoral de Bush, sem qualquer experiência prévia na área).

Paulo said...

Leila,
O cara do National Wheather center diz claramente no video que eles nao sabem o que ia acontecer. Que nem eu te disse, saber do risco todos sabiam oras.

Infelizmente vc nao entendeu meu ponto na epoca, e nao entende agora.

[]s

Paulo said...

Alias, vc viu o video da Blanco?

Eu estou para escreer um post que fala mais ou meno sobre esse assunto como um todo, sobre essas espectativas doidas que se tem do governo e como isso coloca muita gente em risco. Mas quero fazer sem pressa.

[]s

Anonymous said...

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