Friday, August 05, 2005

60 anos de Hiroshima

Mark Twain dizia que "To arrive at a just estimate of a renowned man's character one must judge it by the standards of his time, not ours."

É impossivel julgar, principalmente por parâmetros atuais, se a decisão do Truman foi a melhor possível. Será que o Hirohito realmente deixaria a guerra continuar até uma invasão de Tokio? Teríamos quantos mortos de cada lado? Pior ainda, será que ele poderia evitar essa invasão sem o trauma causado pelas bombas?

Pode-se palpitar, mas nada mais que isso. Tentar traçar paralelos atuais é bobagem, porque a cultura japonesa da época quase que não existe mais. É facil assumir culpados quando vemos os japoneses atuais pregando a paz, mas é preciso entender que esses 60 anos fizeram uma diferença brutal.

O fato indiscutível é que o Japão já tinha perdido a guerra há muito tempo, e mesmo depois da destruição de Hiroshima, não admitiam a derrota. Somente depois de Nagasaki, e mesmo assim sem apoio de muitas partes do exército, o Japão se rendeu, no dia 15 de agosto de 1945.

***

Coincidência ou não, ontem a noite passou na TV o Fog of War, e suas 11 lições de vida. O filme merece um post separado, mas falando especificamente das bombas nucleares, McNamara cita sua regra 5: Proportionality should be a guideline in war.

Esta é provavelmente a lição mais absurda do filme. Esperar uma proporcionalidade intencional de forças é como esperar que o seu inimigo se renda por respeito e não por medo. E no geral, conflitos entre nações de forças equivalentes resultaram nas guerras mais sangrentas da história.

Ironicamente, outras partes do filme contradizem essa regra 5: Regra 9 diz "In order to do good, you may have to engage in evil", e principalmente a regra 11, "You can't change human nature".

Essas duas últimas aliás, são especialmente importantes (e mal compreendidas) atualmente.

5 comments:

Marcelo said...

Paulo,

Um fato que muita gente desconhece ou omite é que os EUA vinham bombardeando ferozmente as duas principais ilhas japonesas sem que houvesse efeito sobre a disposição japonesa em continuar a lutar. Pelo contrário, agora, a guerra era pra defender a terra natal dos soldados.

Durante os bombardeios de Tokyo, com armas convencionais, morreram pelo menos 100.000 pessoas. Outras cidades japonesas sofreram também pesados ataques com bombas incendiárias, e praticamente não é possível estimar a quantidade de mortos devido aos danos na infra-estrutura das cidades.

A bomba atomica teve sim um impacto enorme na disposição de guerra do povo japones, mas não foi o pior ataque ao território japones.

Paulo said...

Marcelo,
Sem duvida. Alias, o proprio Fog of War fala sobre isso dando as porcentagens de destruicao de cada cidade. Mas criticar as bombas nucleares da mais marketing, e eh isso que eu acho discutivel. Na maioria das vezes esse exagero eh ate bem intencionado ja que atualmente as armas nucleares sao uma ameaca enorme, mas algumas vezes acho que essa critica so acontece porque foi os EUA foram os unicos que usaram essas bombas.
[ ]s

Fernando said...

Paulo, entendo o que vc quer dizer, mas nao sei se as outras regras contradizem a numero 5. A proporcionalidade nao e' um conceito pacifista. Nao exclui a natureza humana nem o necessidade de fazer o mal. Mas e ai', gostou do filme ou nao?

[]s

Paulo said...

Fernando,
Gostei do filme. Acho que o McNamara eh um dos caras mais interessantes daquela epoca, e sem duvida tem muita coisa para contar.
Achei a estrutura do filme meio corrida demais. Parece que eles queriam tocar em muitos assuntos em muito pouco tempo, e alem disso queriam mostrar aquelas imagens de efeito e tal... E sem duvida o filme tem um 'background' bem definido, que eh mostrar os erros do McNamara e principalmente LBJ. Entretanto, certas horas o McNamara deixava claro que eram situacoes sem solucao perfeita... Depois escrevo mais, tem muito assunto ali.
[ ]s

Fernando said...

Eu tb gostei do filme. Concordo que existem simplificacoes. Mas e' como em todos os documentarios: se for incluir todos os detalhes ou aumentar muito a profundidade de cada topico, vira tese de doutorado. Tirando o embelezamento estetico (que nao deixa de ser bem feito e interessante), mesmo assim McNamara oferece um grande espaco real para discussao. []s