Sunday, July 17, 2005

China

Outro dia, perdido no sono de uma classe um tanto repetitiva, comecei a contar a nacionalidade dos alunos. São 3 chineses, 3 do oriente médio, 1 maláisio, 1 russo (o falante da classe), 1 irlandês, 1 francesa, uma que eu não identifiquei mas parece ser latina, um brasileiro (eu), e 10 americanos.

Chegou uma hora em que o professor (indiano) perguntou exemplos de produtos marcantes de cada país, meio que procurando de uma maneira politicamente correta mostrar como cada um é especial de uma maneira diferente. Um falou sobre os vinhos franceses, outro sobre os relógios suíços, café colombiano, quando de repente o russo gritou "comunismo chinês".

O professor, meio chocado, disse "Não, o comunismo chinês é uma circunstância política, não um produto".

O russo, visivelmente irritado, retrucou "Eu discordo. Qualquer povo que aceita viver num regime ridículo como o comunismo o faz por opção. Eu digo isso porque eu sei como o meu povo fez essa mesma escolha, e sei que quando se cansaram, a coisa toda desmoronou. Os chineses continuam aceitando o produto vendido pelo governo, apesar desses recentes 'upgrades'. Se isso não te diz algo sobre um povo, não sei o que dirá."

Abaixei minha mão rapidinho. Depois dessa, Roberto Jefferson virou brincadeira de criança...

***

O futuro comunista da China já foi condenado há tempos. Todo esse falatório sobre o "modelo híbrido chinês" é coisa de saudosistas do politburo. A tendência é que a China se consolide no velho fascismo, com um governo autocrático, pró-business, e militarista.

Outra grande diferença do cenário atual para o da guerra fria é a escala da integração entre EUA e China. As ligações econômicas entre ambos são complexas, e a tendência é que esses interesses tornem a perspectiva de uma guerra menor.

Os maiores problemas devem vir de disputas locais, como Taiwan e o Japão.

Mas pelo menos por enquanto, acho que o perigo é pequeno.

9 comments:

Cisco said...

Acho difícil que se consolide em fascismo. É um sistema instável, e o nacionalismo na China pode mais facilmente dividir o país (aqueles muçulmanos no oeste, por exemplo) do que unir.

Marcelo said...

Paulo,

Tem uma amiga minha que estuda RI. Ela estava arguindo comigo sobre a entrada no Brasil no conselho. Eu perguntei a ela sobre qual a grande contribuição brasileira para a ONU. Tirando Delúbio Soares pra gerenciar os programas humanitários, não consigo ver nenhuma.

Fernando said...

A China precisa se resolver internamente pra ser potência. Uma nação onde a vasta maioria é filho único não pode não ter problemas. Além disso é um dos países que mais polui, mais aplica a pena de morte, censura mais a imprensa, é mais tolerante com a pirataria intelectual e tem menos respeito pelos direitos dos trabalhadores. No dia que conseguir reverter algumas dessas coisas, pode ser que ninguém os segure. []s

Paulo said...

Cisco,
Sei nao... Num pais aonde matar criancas com tijolada eh pratica comum, acho que qualquer tipo de movimento separatista seria esmagado imediatamente.

Marcelo,
Ainda preciso escrever sobre essa 'aventura brazuca' no CS. Mas nem preciso dizer que eh tudo uma loucura neh? (O LLL escreveu bem sobre isso)

Fernando,
Acho que a unica esperanca que esses problemas melhorem eh o crescimento ainda maior da dependencia externa. Assisti um programa aonde um grupo de empresarios ia visitar umas fabricas chinesas, e fiquei impressionado com as condicoes (boas). Quem sabe com o tempo esse tipo de melhora nao 'vaze' pela sociedade deles?

[ ]s

Fernando Henrique said...

Por que você não disse que nosso maior produto é o conformismo? Nenhum país se compara ao nosso nesse quesito. Deveria ser um produto for export!?

Fernando Henrique said...

Por que você não disse que nosso maior produto é o conformismo? Nenhum país se compara ao nosso nesse quesito. Deveria ser um produto for export!?

Fernando said...

Tem que ver quais fábricas eram, Paulo. Considerando-se que o controle da mídia e a censura é brutal por lá, dificilmente iriam deixar filmar uma fábrica que não estivesse nos trinques. Além do mais com um grupo de empresários visitando. Acho que existem mais do que boas fábricas para a China ter se tornado o maior exportador de produtos baratos. Por outro lado é verdade que muitas coisas vem evoluindo por lá. Há de se ver onde as contradições chinesas vão ir parar. []s

Claudio said...

É verdade, eu lembro da escola onde minha mãe dava aula que se preparava toda para "inspeção surpresa" da Secretaria de Educação. Sei que é radical mas, em relação à China, não dá para confiar em nada que vem de lá.

Jorge Nobre said...

Quanto as complexas ligações comerciais, bem, você pode ter razão. Só que antes da Primeira Grande Guerra o maior parceiro comercial da Inglaterra era a Alemnha do Kaiser.

Os homens que governam a China precisam manter as "complexas relações comerciais" com os EUA para permanecerem no poder? Provavelmente não. Precisam manter uma ditadura horrenda? Sim. Longe de mim achar que estou certo em tudo, só que acho que temos que levar isso em conta.