Tuesday, September 13, 2005

Mais uma do Brasil neoliberal...

O Doing business database, um projeto organizado pelo World Bank, é um estudo que mediu os custos das leis que regulam empresas privadas em 155 países. Baseado nesses custos, foi criado um ranking que compara a facilidade/dificuldade nos diversos passos envolvidos na vida de uma empresa (Abrir um negócio, conseguir licenças, contratar e despedir trabalhadores, registrar propriedade, conseguir crédito, proteger investidores, executar contratos, importar/exportar, pagar impostos, e fechar uma empresa) em cada país.

O Brasil neoliberal, para variar, me surpreendeu: Posição 119 (do total de 155). Contratar e despedir funcionários é especialmente horroroso no Brasil (posição 144). No geral, ficamos atrás de potências econômicas como Albânia, Guatemala, Etiópia e Butão.

É mais fácil ser um empresário no Irã (posição 108) e no Iraque (posição 114) do que no Brasil.

Via Marginal Revolution

19 comments:

Fernando said...

Na China o governo manda e desmanda na economia. No Iraq/Iran, é necessário ter conexões religiosas e étnicas para sobreviver em qualquer área. Será que mediram isso também? Deve ser difícil manter um emprego em Palau.

[]s

Paulo said...

Fernando,
Esta tudo documentado aqui:
http://www.doingbusiness.org/Methodology/

Eu sinceramente nao duvido que seja mais facil abrir um negocio na China do que no Brasil. Meu pai tinha uma empresa, e os empecilhos eram inacreditaveis.

[ ]s

Marcelo said...

Paulo,

Sabe porque eu não levo a esquerda a sério?

Os liberais do mundo inteiro são contra o FMI. A própria existência de um fundo cuja a missão seja "equilibrar" o mercado é algo que vai totalmente contra as ideias de liberalismo econômico.

O que o FMI deseja é retirar o Estado da gestão do dia-dia dos serviços públicos, e deixa-la a cargo da iniciativa privada. O Estado passa a ser somente o planejador central, o capitão do navio, o norte da iniciativa privada. Mas ainda sim é dele, e não do mercado, que partem as diretrizes de produção.

Em suma, a política defendida pelo FMI é estatísta, mas não é estatísta num grau tão elevado quanto os socialistas desejam.

Mas a esquerda é acostumada a pensar de forma binária. Se não é socialista, é liberal. Se não é de esquerda, é de direita. E assim terminam agrupando qualquer coisa que se afaste do Estatismo de neoliberal, de direita, e coisas afins.

Se existisse um manual do perfeito-idiota-latino-americano, o capítulo de economia se resumiria ao último parágrafo que escrevi.

O resultado disso aqui no Brasil é que você tem aberrações como essa: um país fortemente estatista, em que o Estado cercea de todas as formas possiveis e imagináveis a liberdade econômica, mas que por se distanciar um pouquinho do caminho de Cuba, Venezuela e Coreia do Norte, recebe o rótulo de neoliberal.

Dá pra levar gente que pensa nesses termos a sério?

Fernando said...

Não duvido que seja. Mas acho que viver numa teocracia deve representar empecilhos consideráveis à livre empresa, não?

Marcelo said...

Fernando,

Até representa. A quantidade de procedimentos lá é consideravelmente maior que a daqui.

O problema do Brasil é que enquanto aqui você tem menos procedimentos, você leva ANOS pra realizar qualquer coisa. Enquanto lá o tempo médio de falência de uma empresa é 1,8 anos, aqui são 10. E se for olhar com a lupa a incompetente justiça brasileira a situação é bem pior.

Existe também a questão custo. Os custos em relação ao capital investido para pagamento da burocracia são elevadíssimos por aqui. No Iran também são, mas são inferiores aos daqui.

A legislação trabalhista no Iran também é muito, muito mais flexível que o Brasil neoliberal. Contratar e demitir lá é mais fácil que aqui.

Por ultimo, apesar de religioso, o povo iraniano possui uma tradição de comércio milenar. É algo totalmente do Brasil, cuja a tradição é carnaval e futebol.

Paulo said...

Fernando,

Eu acho que o Marcelo esta certo. De primeira fica dificil acreditar que uma teocracia possa ser mais eficiente que nossa democracia, mas considerando o tamanho da nossa ineficiencia deve ser isso mesmo.

Claro que um estudo como esse nao mede qual negocio vc pode ou nao pode ter, mas sim o lado operacional de um negocio legal.

Marcelo,
Lembra que conversamos uma vez sobre esse negocio do FMI? Veja como agora ninguem mais fala nele, e todo aquele blablabla foi transferido para outro testa de ferro (ironicamente o PT!).

Nao tem jeito, falta conhecimento, falta cultura capitalista, falta muita coisa. E o pior eh que o pais nunca chega numa situacao insustentavel, entao o status quo continua. A forca do pais eh tao enorme que mesmo amarrado de todos os lados continuamos nos arrastando.

[ ]s

Fernando said...

Marcelo,

Entendo o que vc quer dizer. Comercialmente falando, o Brasil exporta mais ou menos do que o Iran? Eu, honestamente nao sei. Mas se o comercio vai tao melhor por la', ao que se deve a diferenca de GDP?

Entao a conclusao e' que o brasileiro e' preguicoso por natureza e nada nunca ira pra frente, apesar dos pesares? Ou com educacao a coisa mudaria? A classe dominante, o governo e os empresarios nao estao ligados no Brasil?

[]s

Fernando said...

Tambem nao entendi o tempo de falencia menor ser absolutamente melhor.

[]s

Paulo said...

Fernando,
GDP eh dependente de muitos outros fatores (recursos naturais, infraestrutura do pais, populacao, aliancas politicas, etc). E sem duvida o Iran eh bem pobrezinho em muitos aspectos, principalmente politicos. E mesmo assim, o GDP per capita eh bem proximo do brasileiro (8200 - 7700).

Mas o objetivo desse estudo eh somente estimar o impacto da legislacao trabalhista nos negocios (principalmente pequenos e medios). E nesse quesito o Brasil eh sem duvida alguma um dos piores. Nada a ver compreguica do povo. Tudo a ver com burocracia fora de controle, corrupcao , falta de governancia. So o tamanho do nosso mercado informal mostra na pratica como nossa legislacao eh um horror.

Sobre a falencia, um processo rapido e limitado ajuda a incentivar novos negocios a serem abertos. Se vc tem que arriscar toda sua vida num negocio (geralmente pessoas tem que esperar o fim de um para comecar outro) vc tem menos motivos para arriscar e abrir um negocio.

[ ]s

Fernando said...

Paulo, valeu pela explicação. Interessante que o GDP do Iran provavelmente se deve em sua maioria ao petróleo, mas mesmo assim fica abaixo do brasileiro.

O problema são as leis trabalhistas em geral ou será que é o exagero à que se chega no Brasil em certos pontos? Digo isso porque os países escandinavos aparecem no topo dessa pesquisa, inclusive a Noruega está no top 5 (sem falar no Canada).

[]s

Marcelo said...

Fernando,

O problema do Brasil não é legislação trabalhista. É legislação trabalhista, justiça corrupta/lenta/parcial, burocracia, tributação, mais burocracia, e pronto.

Se a legislação trabalhista é um PROBLEMA pra quem contrata e demite? Bem, é só você pegar qualquer empresa pequena que perde um cliente grande, ou uma empresa grande que precisa ajustar a produção.

Nenhuma empresa demite porque é bonitinho, ou porque o dono acorda de mau humor. Demite porque precisa ajustar seus custos. E num momento de ajustes você ter uma legislação que piore a situação é tudo menos bom para os negócios.

Se uma empresa vai a falência na Noruega, a falência é rápida e o credor recupera o seu dinheiro. Aqui no Brasil quando uma empresa vai a falência, ninguém sabe o que pode acontecer, principalmente se for amiga do PT (vide Transbrasil). Se você tenta exportar na Costa Rica, você exporta em 2, 3 dias. Aqui, SE não houver greve, sua carga sai em ATÉ 45 dias. Isso numa cadeia de produção enxuta é um tiro na cabeça.

São várias as dimensões do estudo, são várias as dimensões da liberdade econômica. E o Brasil está mal em todas elas.

Eu não disse que o brasileiro era preguiçoso, nem que nao ía pra frente. Mas este aqui é um povo que definitivamente não pode dizer que tem compromisso com o trabalho. Quando você compara com um americano, um inglês ou um japonês, a coisa fica mais feia ainda.

Se com educação mudaria? Melhoraria um bocado. Mas eu fico bastante desanimado com a opinião do brasileiro médio sobre educação quando um mentecapto que não estudou POR OPÇÃO é eleito presidente da república.

Só pra constar: Metade do PIB do Iran vem do setor de serviços, uma composição parecida com a do Brasil.

Marcelo said...

Paulo,

Pois é. Eu não havia lido o capítulo sobre economia do perfeito-idiota-latino-americano.

Devo ter sido esperançoso demais com essa turma, e olha que eu infelizmente estudo com alguns dessa gente. Depois da implosão do PT, vou passar a esperar tudo desse pessoal. Tudo.

Marcelo

Marcus Pessoa said...

Você tocou num ponto preciso, Paulo, que é a questão das falências. Muito mais difícil do que abrir uma empresa é fechá-la, mesmo que isso decorrer simplesmente da vontade de seu dono (por não estar sendo vantajoso, por exemplo). O cipoal burocrático é absurdo.

Marcus Pessoa said...

Mesmo que isso decorra...

Fernando said...

Marcelo, valeu pelos esclarecimentos, eu realmente não estou por dentro dos detalhes econômicos do estudo.

Eu acho difícil imaginar que o compromisso com o trabalho seja falho em todos os setores em todos os lugares em todas as empresas/governo, mas existe um vício que vai muito além dos círculos do PT e a classe empresarial não parece estar imune em termos de corrupção.

Enfim, eu não tenho dúvidas que educação deveria ser a chave fundamental. É difícil imaginar um espírito comercial nascendo da massa que nunca teve acesso à isso. Talvez a solução seja consertar o que não funciona, antes de abrir-se ao liberalismo em estado bruto.

[]s

marcelo said...

Fernando,

É complicado falar em liberalismo no Brasil.

Pra começar, não há aqui precedentes históricos de respeito a propriedade privada. Na verdade, o conceito de propriedade privada aqui é algo bastante vago e difuso. A coroação dessa distorção foi a constituiçao de 88, que estabelece que a propriedade privada precisa ser utilidade social.

Quando você não tem uma noção clara de propriedade privada, liberdade individual e PRINCIPALMENTE, ao dinheiro dos outros, não tem condição nenhuma de falar em liberalismo.

A corrupção no Brasil não se limita ao PT, ao PSDB. O buraco é bem, mas bem mais embaixo.

A corrupção no Brasil é histórica. Em todo mundo, há uma certa dose de corrupção. São prostitutas pagas a um cliente, um presente aqui, outro alí, um por fora. Isso É do jogo. O problema da corrupção no Brasil não é esse. O problema é que aqui, ou se é corrupto, ou você está fora do mercado.

Se você planeja concorrer em uma grande licitação, tem que molhar a mão de alguém. Se você quer manter seu negócio no mercado, precisa subornar a receita pra não pagar imposto, e por aí vai. A própria estrutura do Estado é constituída em cima de um Alice-in-wonderland que só é possível de funcionar na realidade a base de corrupção da grossa.

E aí o quadro que temos é esse. O político só se elege fazendo caixa 2. O cara só vende ao Estado se pagar a propina. O empresário só exporta no prazo se conhecer alguém no porto. O micro-empresário só mantém seu negócio de pé se sonegar imposto. E assim a coisa anda.

Se o Brasil estaria melhor se fosse liberal? Eu aposto que estaria. Pelo menos a parcela da população cabeça aberta poderia garimpar oportunidades em paz. Espirito comercial não vem de educação. Espirito comercial vem de necessidade, da observação da melhora do bem-estar com as trocas comerciais. Se espirito comercial dependesse de educação, o comércio teria surgido MUITO depois do que a escrita ou da filosofia.

Se eu acho que educação melhoraria a situação economica do Brasil? Educação NUNCA é demais. O que falta ao brasileiro é senso de propriedade. É saber que o dinheiro que o governo cobra do empresário a título de previdência não é um direito, é dinheiro DELE que o Estado confisca. É saber que o FGTS não é um direito, mas uma poupança forçada que o Estado faz com o dinheiro dele.

Fernando said...

Acho que o comércio surgiu paralelamente à escrita e a filosofia, não? Eu acho que antes de colocar este ou outro sistema, é necessário consertar o que não funciona tanto no governo quanto na empresa privada. Sem dúvida a corrupção faz parte da sobrevivência e quebrar esse círculo vicioso é quase impossível, nisso eu concordo 100% e sempre disse isso. Porém, é inegável que a corrupção funciona em duas vias, Marcelo. Eu tb não tenho certeza se uma maioria indigente da população vai se levantar da pobreza com um banho de liberalismo, ou qualquer outro ismo. Gostaria de pensar que sim, mas duvido. Acho que a responsabilidade individual tem que estar aliada à responsabilidade coletiva, senão nada adianta. Educação nunca é demais, é dizer pouco. Educação pra mim é o fundamental, antes de tudo.

[]s

marcelo said...

Fernando,

Não é bem assim, não. Comércio surgiu a partir de um momento que alguém disse pra outra pessoa "eu faço o arado e você cuida da plantação".

De fato alguns historiadores creditam o surgimento da escrita à necessidade de controle e comunicação geradas pelo comércio, mas nenhum deles suporta a tese de que o comércio surge depois da escrita.

E Fernando, o que você chama de responsabilidade coletiva?

rafael azevedo said...

Nonsense! A escrita surgiu justamente como uma ferramenta para auxiliar os comerciantes da Mesopotâmia, portanto obviamente DEPOIS do comércio; os exemplos mais antigos já encontrados de escrita são os tabletes de argila com onde eles escreveram listas de estoque, contratos e coisas do tipo. O comércio seguramente é tão antigo quanto o ser humano.